1 de julho de 2018

Oito anos e a Parreirabilidade

A vida começa aos oito. Foi na "aurora da vida" que eu vi a Copa de 82.

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O Sarriá enlutou mais que os 7 x 1, e devastou mais que o Maracanazzo. O Sarriá foi o rio que passou pela minha aldeia, e é a mais bela e mais triste tragédia do futebol, porque é a minha tragédia.

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Falo no presente de propósito. Aos oito anos vi Falcão vencer Dino Zoff de fora da área. Não é o gol mais bonito das Copas, mas é o gol mais bonito das Copas porque foi feito para mim.


Sim, é o jogo completo… assista e entenda um pouco mais sobre este clássico histórico
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Ali aprendi que se podia jogar pelo empate. Vi meus tios mandando nossos atletas acertarem os italianos. Ali aprendi que valia bater desde que o juiz não visse.

Foi quando Cerezzo recuou a bola no meio-campo sabe-se lá para quem, e a Divina Providência fez Paolo Rossi pegar aquela bola e congelar o tempo…

A vida começou ali. A vida parou ali…

Ainda vejo o futebol com olhos de oito anos - e com estes mesmos olhos certamente ainda vejo muita coisa no mundo, ainda que não assuma. Por isso não cobrem coerência de um menino. Não me chamem de Pacheco, de Torcedor-Urso, não, por favor.

Exijo respeito: me chamem de Moleque.

Adulto nenhum correria o que correu o sul-coreano Heung Min depois de jogar 96 minutos de futebol. Ao ver o gol desamparado por Neuer, ele disparou feito um buscapé e ali nós fomos com ele vingar o 7 X 1.

Ele correu com o fôlego de um menino de oito anos e nós comemoramos como se coreanos fôssemos desde criancinhas. Nenhum adulto pensaria que Heung correu por nós. Mas nós, os Moleques, pensamos.

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Corta para o jogo do Uruguai. Devemos nossa maturidade à Celeste. Ou talvez nossa meninice, melhor dizendo. Soares e Cavani voltaram a jogar como meninos da base do Nacional - sim tem outro time no Uruguai que não o Peñarol.

O primeiro gol foi arte. Soares cruzou diante de 300 lusos e a bola encontrou milimetricamente a... bochecha de Cavani, que deslocou o bom Rui Patrício. Só em jogo de rua que se faz gol de bochecha.

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E esse menino francês? Mbappé, é isso? Que gol foi aquele contra a Argentina? Impávido, tranquilo e infalível.

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O futebol de hoje é mais agudo, rápido, menos dado a malabares e mais dado aos dardos. Eu sei disso. E por saber disso, não almejo que os atletas joguem como os meninos do (ai ai, vou dizer a expressão) "meu tempo". Mas que joguem como meninos.

Meninos de 8 anos são os homens mais responsáveis do mundo quando o assunto é futebol. Aos 8 anos, joga-se pela honra. Aos 8 anos imaginamos-nos diante de uma arquibancada cheia quando jogamos num terreno baldio.

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A arte reside em jogar no estádio do Spartak abarrotado imaginando-se num terreno baldio. Foi assim que saíram estes gols citados acima.

Este esporte sempre será dos Moleques. Não mais dos velhos senhores argentinos, praticamente uma ex-seleção em atividade. Tiveram atitude dos adolescentes de 15 anos (portanto velhos demais) da rua de cima, inclusive diante de seu técnico. Os meninos de hoje não colocam a bola debaixo do braço, empinam o queixo e resolvem na base do nome.

Os meninos de hoje treinam tática, respeitam o traçado imaginado pelo técnico, jogam pelo coletivo, detém a bola o tempo necessário.

E neste sentido, foi um bálsamo a vinda de Tite. Ele já mostrou que entende o dito futebol moderno. Vemos uma Seleção distribuída em campo a partir de treino, não de intuição. Vemos as jogadas ensaiadas, a progressão defesa-ataque, as triangulações - o gol de Coutinho contra a Suíça nasceu de uma delas. Mas dá para ser Moleque em meio a tanto ensaio?

Claro que dá.

Parreira em 94 teve que forjar uma Seleção de adultos, reservando a um, não por acaso, baixinho o papel de moleque. Mas era um imperativo histórico, um soluço dos tempos, e tivemos sucesso. Ao colocar seu esquema acima - e não ao lado - da molecagem, Tite visa garantir uma maior jogabilidade (para ficar num termo consagrado por ele mesmo) porém se arrisca no resvalo à parreirabilidade, que hoje é desnecessária.

Os que manjam do riscado apontam que a Seleção está torta em campo. Seja lá o que quer dizer isso, o remédio está em posicionar cada um na zona em que mais rende.

Já apontaram a presença de William como fator entortador, no que Tite se aproxima do lado ruim de Parreira, que é a teimosia, sem contar que perigosamente se repete neste sentido: William seria uma insistência meio turrona, como foi com Emerson Sheik no Corinthians depois da conquista do Mundial. Portanto tá facinho: tira o William e coloca... eu sei lá!!!

Mas deixe o Menino ser mesmo um menino, rendendo na parte do campo onde gosta, assim como com os outros nove - já que Alisson está certinho no seu lugar.

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Reconheceu o menino?

Essa coisa de palpitar do brazuca não é coisa de iletrados, como dizem por aí. É coisa de meninos. Aos oito anos, achamos que o mundo nos ouve. Muitos meninos dessa idade se ressentiram de não avisar Bigode que Gigghia iria tentar por ali de novo.

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Ou de não mandar David Luís ficar plantado na grande área dando chutões, pois os alemães pareciam não se contentar "só" com três gols.

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Ou ainda, como no meu caso, de não ter berrado para Toninho Cerezzo que aquele desgraciatto estava logo atrás dele...

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